Bochechas rosadas como se fossem de um bebê. Cabelos encaracolados de uma mulher com um quê quase inexplicável de sensualidade. Voz meio rouca, meio mansa. Olhos largos, atentos. Naquela noite, ela entrou no quarto vestida apenas com uma camisola branca, quase transparente. Veio pisando devagar, como se estivesse respeitando o silêncio daquele cômodo. Desligou o celular e o colocou em cima do criado mudo. Ligou a antiga vitrola que havia comprado no centro. Colocou a sua música predileta e virou-se para o lado. Deu um beijo nele e perguntou com aquele jeitinho:
- Por que você é assim?
- Assim como?
- Assim... Desse jeito que não me deixa nem pensar em cogitar em lhe dizer um 'não'.
- Você não gosta? É isso? Porque, se quiser, eu posso ir embora, numa boa...
- Nããããooo... Fica aqui, vai!
Ela se aconchegou entre os braços dele e, olhando para a vitrola, continuou:
- Sabe que eu odeio esse jeito matemático que você tem de olhar a vida. Tudo pra você é oito ou oitenta. Quando penso que você chega pra somar, a surpresa: você começa a dividir, a subtrair...
- Pelo jeito você não tá mais gostando de mim, né? Tô vendo por esse olharzinho vago seu.
- Você tá errado. Gosto até demais. Esse é o problema, e você sabe muito bem disso!
- Ah, então vamos curtir o momento, vai. Lembre-se que, quando o sol aparecer, eu vou ter que ir embora. Então...
- Então... E, quando o sol aparecer, como fico? Só na saudade?
- A saudade é saudável, Carol! Faz bem ao coração. Ela te dá mais vontade de me ver da próxima vez.
- Mas até essa 'próxima vez' eu serei obrigada a conviver com o sofrimento, com o medo de não ter mais essa 'próxima vez'.
Ela se levantou. Sentou-se na cama, ajeitou os cabelos com um ar de pouco caso.
- O amor é assim, ué... Pra ele existir, linda, tem que ter saudade, incerteza e um pouquinho, mas só um pouquinho, de sofrimento...
- Nossa! Como você é cruel...
- Cruel eu? De jeito nenhum! Garanto que se eu viesse todo dia aqui o nosso amor não duraria tanto...
- Aí não seria amor, meu amor entre mil aspas!
- Por que as aspas?
- Porque, porque... Eu sei lá! Tô confusa, isso sim!
- ...
- E esse seu silêncio me confunde ainda mais. Fala alguma coisa...
- Eu queria lhe beijar, mas acho que você não vai querer...
- Agora não! O seu beijo, agora, iria me confundir ainda mais... Eu quero que você...
- Que eu?...
- ...
- Sei lá! Quero você aqui e quero você longe de mim, tudo ao mesmo tempo, entende?
- Não!
- Nem eu!
Naquele dia, depois que o sol nasceu, ela entendeu, pela primeira vez, o significado do amor.
Tem um momento, por mais que você diga que não, que dá vontade de largar tudo. E por mais que digam que tudo que está aí está para facilitar a sua vida, a vida, na verdade, está mais complicada.
E se não dá para largar, dá para imaginar a vida mais fácil ouvindo no fone de ouvido o disco Chova viola, canta coração, que o grupo Paranga lançou em 1982.
Os elementos são típicos da música regional - da música do sertão paulista, mais precisamente. Nos primeiros acordes do álbum, a musicalidade diferenciada do Paranga transporta o ouvinte para um lugar de onde somente é preciso um violão para ser feliz.
A impressão que se tem é de que está reunido com um grupo de amigos, todo mundo cantando e curtindo como se as responsabilidades não existissem.
O Paranga é diferenciado. Faz música caipira com requinte, com sopros, metaleira e solos de violão. Com harmonias vocais, com várias vozes sobrepostas, com alternância de cantores. Essa diferença no tratamento da música regional elevou o grupo ao patamar da Vanguarda Paulista no começo dos anos 1980. Aquele bando lá de São Luiz do Paraitinga, herdeiros sonoros do compositor preferido de Mazzaropi, Elpídio dos Santos, conquistou o sonho urbano de se apresentar no palco mais criativo da MPB de então, ao lado de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Rumo, e ainda viu de perto o despertar do rock do Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor. Era a vitória da big band caipira!
Chora viola, canta coração passeia por todo o universo do Paranga. As marchinhas carnavalescas de São Luiz, o sertanejo de raiz e até o foxtrote norte-americano. O álbum é o passaporte para dar um tempo na vida. E o coração se renova com os primeiros acordes de "Dona da salão". Uma divertida história de amor e ciúmes. “Ela estava tão bonita vestida de chita / Na noite de São João / Parecia um ramalhete / Vendendo bilhete no caramanchão / Eu tocava uma sanfona / Mas tinha uma dona, bem perto de mim / Ela então não fez mais nada, toda enciumada / Foi dizendo assim / Mande embora o sanfoneiro / Não interessa mais ouvir tocar / Tenho ordem do festeiro / Fazer o que quiser neste lugar / Se ele não sair agora / Eu vou dar o fora / Lá para o salão / Se continuar tocando aqui / Vou ficar sem coração.”
Ou como não sentir um aperto no peito ao som de "Quem dera"?, uma típica fábula de amor interiorana. Uma marcha torta, com o sopro disritmando o coração.
"Não sei se você lembra aquela noite, na calçada / Já era madrugada /(...) Cantava uma canção já quase pronta / Percebi que você nem ligava / Quem dera, que nada / (...) Quando o sol apareceu, e o dia amanheceu, eu chorei / Pois lá se foi mais uma noite sem você.”
Os violões atacam em "Fulia". Uma aula! "Você vai gostar" é um clássico. Você sabe qual é; também conhecida como "Casinha branca". E é tudo que você quer da vida. Pelo menos por um fim de semana.
Seguem, ainda, delícias como "Saudade danada", "Desde aquele carnaval" ("Faz tempo que eu não te vejo / Não esqueço o beijo que você me deu...") e a ótima "Bobão", um quase rock anos 50.
"Uma das bandas da bunda" é uma marchinha deliciosa, para sair dançando pela rua, onde a banda dá as cartas e apresenta o que tem de melhor.
É a música do sertão como a gente gosta. Como a vida deveria ser.
Um monte de coisas para escrever por aqui, mas falta tempo. Prometo que essa semana tem mais. Podem dormir tranquilos, todos 11 leitores. Enquanto isso, uma imagem para alegrar a semana. A musa Rachel Weisz, na capa da revista Esquire. Dica do Palandi (www.palandi.com). Raquelzinha, você deve ver em filmes como "Um Grande Garoto" (sensacional), "O Jardineiro Fiel" e "Constantine", entre outros.
Madrugada Vanguarda especial de Natal amanhã! E vai começar bem cedo: meia noite!
Fiquem ligados. Vai ter um monte de coisa bacana: Vinicius Valverde conversa com a repórter Fernanda Cesaroni sobre os símbolos do Natal. O Boteco Vanguarda vai sortear uma camisa oficial do São Paulo e ainda tem um convidado super especial: o pentacampeão Roque Júnior. O Confusões Femininas vestiu chapéuzinho de Mamãe Noel e discutiu o universo da mulherada. Programa imperdível!!!
Na redação, doze horas direto, meio que questionando tudo isso, aí mestre Palandi (www.palandi.com) resume a história toda:
"É que eu me senti o rocket man hoje: estava aqui mas estava com a cabeça em outro ponto do espaço, com aquelas saudades portuguesas que continuo sem saber explicar, entendendo tanta coisa que eu não entendia antes... e me sentindo sozinho, mesmo com tanta gente me ligando. Torço para que isso passe, mas talvez seja algo que eu simplesmente tenha que aprender a conviver."
John Lennon – Bem, você faz o seu sonho. Essa é a história dos Beatles, não é? Essa é a história da Yoko. É o que estou dizendo agora. Faça seu próprio sonho. Se você quer salvar o Peru, vá até lá e salve o Peru. É bem possível fazer qualquer coisa, mas não coloque seu sonho na mão dos líderes. Não espere que Jimmy Carter ou Ronald Reagan ou John Lennon ou Yoko Ono ou Bob Dylan ou Jesus Cristo venham e realizem seu sonho por você. Você tem que fazer isso sozinho. Isso é o que os grandes mestres dizem desde o início do mundo. Eles podem apontar o caminho, deixar pistas e pequenas instruções em vários livros que hoje são chamados de ‘sagrados’ somente pela capa e não pelas suas idéias. As instruções estão todas aí. Não há nada de novo sob o sol. Todas as estradas levam a Roma. E as pessoas não podem te levar. Eu não posso te fazer acordar. Você tem que acordar sozinho. Eu não posso te curar. Você pode se curar.
Acabou de passar o programa “Por toda a minha vida” dedicado ao Cazuza. Confesso que fiquei embargado com o final. Que todo mundo sabe. Mas é que eu ouvi demais Cazuza e Barão Vermelho. São dois nomes que estão na seleta sala da minha consciência onde eu tenho que comprar tudo que sai. Mesmo os trabalhos mais fracos. Quando era moleque ouvi os discos até rachar. Queria cantar que nem o Frejat na bandinha que eu tinha. Coisa séria.
Como disse o Ezequiel Neves, mentor, o George Martin deles, os discos do Barão costumavam vir em carne viva. E é isso mesmo. Tem coisa mais contundente do que a letra de “Down em Mim”? Quem não passou por isso: “Outra vez vou te esquecer/Pois nestas horas pega mal sofrer/Da privada eu vou dar com a minha cara/De babaca pintada no espelho/E me lembrar, sorrindo, que o banheiro/É a igreja de todos os bêbados/Eu ando tão down”.
Aliás, Ezequiel Neves, presença fundamental no programa, foi um dos melhores papos que já tive. Um ícone do rock tapuia. Falei com ele na época do lançamento do filme. Liguei da minha casa, conversamos bastante. Foi uma honra. Por alguma razão, achei que você quisesse ler esse texto, caros três leitores e fui buscar. Segue abaixo.
*
Ezequiel Neves atende no terceiro toque do telefone. Antes de falar "alô", deu para ouvir no fundo o riff de Start Me Up, dos Rolling Stones. Parece até mesmo, filme. Claro, trata-se do homem que durante muito tempo atendia pela alcunha de Zeca Jagger, talvez o maior entusiasta da banda de Keith Richards no Brasil.
Lenda-viva, Zeca inventou o jornalismo cultural e a crítica musical por aqui. Foi editor-chefe da lendária primeira versão da Rolling Stone brasileira, desfilou sua crítica ácida no Globo, Jornal do Brasil, revista Somtrês, entre outras grandes publicações. Descobriu o Barão Vermelho e, consequentemente, de Cazuza. Mas foi além do âmbito profissional. Era mentor, amigo, parceiro e tudo mais de Cazuza - e do Barão até hoje. Dirigia a "caravana do delírio", famosa barca itinerante de sexo, drogas e rock'n'roll composta pelos melhores e mais loucos amigos de Cazuza e Zeca.
No filme Cazuza - O Tempo Não Pára, é o personagem Zeca, vivido pelo sempre competente Eugênio de Mello. Bicha velha, aos 70, Zeca se mantém longe do showbusiness e só sai para produzir os discos da banda de Roberto Frejat. Fez até uma participação no filme, sutil, curtindo um dos primeiros show do grupo, ao lado do Zeca-personagem - iconoclasta, no filme, o Zeca de verdade joga uma garrafa de uísque no palco. Arredio à imprensa, de seu apartamento no Leblon, entre um insulto e outro, mestre Zeca falou com exclusividade.
Gostou do filme?
Ezequiel - Adorei. Muito bem feito, sensibilíssimo. Os atores estão ótimos, o Daniel (Oliveira) realmente incorporou o Cazuza. Os diálogos são verdadeiros, o roteiro é excelente. Tudo que aconteceu na vida real, ta no filme.
E o ator (Eugênio de Mello) que te interpreta?
Ezequiel - Excelente. Gostei muito do trabalho dele, foi maravilhoso.
Você conversou muito com ele?
Ezequiel - Claro, pergunta esdrúxula... (risos). É um excelente ator, fez muito teatro e cinema. Só não é mais conhecido porque ele não se vende para qualquer noveleta. Fui muito amigo dos professores dele na escola dramática. Conversamos muito, mexemos nos diálogos, que estavam ridículos. Aproximei mais as falas com a realidade. E ele desmunheca pra caramba. Porque é assim que eu era e sou. No meio daquela porção de moleques cheios de testosterona, tinha que ter uma bicha - e esse foi o meu papel. Tinha que ter um pouco de chica-chica bom!
Você lembra do primeiro encontro que teve com o Cazuza?
Ezequiel - Claro. Foi muito antes dessa história toda de rock e Barão. Já tinha conhecido ele na praia. Era um franguinho, fazia poesia, fotografia, teatro experimental, tinha planos de estudar inglês em Londres.
Como era sua relação com ele?
Ezequiel - Era uma relação de avô com neto. Que é muito melhor do que pai e filho. Não tem brigas, só tem a coisa boa da relação. Com o avô pode tudo e o neto apronta mesmo. Fica pior ainda. Éramos muito ligados, conectados. O que um dizia, o outro escutava.
E na saída dele do Barão, tu teve que escolher um lado?
Ezequiel - Não. Eu tinha cinco moleques que eram como um filho meu. Quando se separaram, foi como se meu companheiro, meu filho tivesse se dividido em dois. Mantive a mesma relação com ambos, com a mesma paixão e o amor de sempre.
Relação que se estende até hoje com o Barão...
Ezequiel - Até hoje... Produzi todos os discos da banda e estou produzindo o disco novo deles. Assim como produzi todos os do Cazuza...
Por que a música do Cazuza não alcançou a nova geração? Pelo menos não da mesma maneira que a música da Legião Urbana, que continua fazendo muito sucesso até hoje.
Ezequiel - Porque o Renato Russo era muito messiânico, cheio daqueles discursos de salvação e palavras rebuscadas. Cazuza era vapt-vupt. Renato Russo era muito metafórico, difícil. Brasileiro, pela sua ignorância, gosta e cai em qualquer discurso rebuscado. E Renato Russo era muito feio. Feio. E o brasileiro é um povo feio, que se identificou com ele. Enquanto o Renato era poético, Cazuza era muito direto, no alvo. O Cazuza cuspia na cara das pessoas. Se a música do Cazuza não sobreviveu até hoje, eu acho que é pior para as pessoas. Elas estão perdendo de ouvir a verdadeira boa música, com letras de verdade. Não estou querendo puxar a sardinha para o meu lado, adorava o Renato, mas ele não tinha a dialética urbana do Cazuza.
Ainda existe muito material inédito do Cazuza?
Ezequiel - Muita coisa. Tem muita letra, poesia, coisas geniais, que não foram usadas até hoje.
Discos póstumos?
Ezequiel - Não sei dizer, não que eu saiba... Mas, como assim?
Coisas que ele gravou e não lançou.
Ezequiel - Mas aí seria uma idiotice ele ter gravado e não ter lançado...
Lançaram mais discos do Renato Russo depois que ele morreu do que quando estava vivo...
Ezequiel - Pois é, mas eu não sei não... Deve ter...
Você fez história no jornalismo cultural, não tem vontade de voltar a escrever?
Ezequiel - Não muito. Mas só tem bunda-mole no jornalismo cultural de hoje. Só bundão. Ninguém tem estilo. Mas eu tenho 70 anos, acho que mereço um tempo de descanso. Não quero mais ter a obrigação de receber 50 discos da gravadora e ter que fazer crítica. Eu acabaria fazendo resenha da capa e não seria justo. Quero poder me hospedar apenas nos discos que eu quiser, apenas nos bons sons. Eu só ouço coisa boa agora e é ótimo.
Eu entro mais tarde aqui na TV, por isso acabo ficando até mais tarde. Vez por outra acabo atendendo uns telefonemas noturnos com sugestões de pauta para os jornais, pedidos desesperados e broncas de vários tipos. Semana passada o meu ramal tocou e, como sempre desejou o xará Graham Bell, eu atendi.
Era Dona Sônia. Indignada, como são os que telefonam para a redação depois que o sol se esconde. Dona Sônia estava muito brava. Ela achou um absurdo que alguns estudantes de Medicina não puderam participar da colação de grau porque estavam envolvidos no suposto caso de trote violento que aconteceu no começo do ano. Dona Sônia achou que era uma ofença contra a sociedade, contra ela, e contra quem mais aparecesse pela frente. E exigia a presença de uma equipe da Rede Vanguarda porque, segundo ela, “a justiça só se faz no Brasil com a presença da TV”.
Enquanto eu passava a informação para a produção de jornalismo, Dona Sônia ligou muito mais brava pela demora para chegar alguém. Esbravejou, me xingou e disse que eu estava sendo controlado pela instituição de ensino que proibira os estudantes de colar grau. Uns 15 minutos depois chegou uma equipe de TV no local. Dona Sônia não ligou para se desculpar comigo.
Dona Sônia, aliás, só para você ficar ligado no lance, defendia a justiça e o direito dos três estudantes de se formarem. Como eu disse, eles são acusados de participar de um trote violente. Lembrando. Durante o trote, supostamente ocorrido no início do ano, os veteranos teriam cuspido no rosto dos calouros, forçado-os a fazer cenas de sexo homossexuais, dirigir em alta velocidade pela rodovia Presidente Dutra, ainda comer pimenta, sal com alho e ração de cachorro. Alguns calouros também teriam passado por sessões de depilação do corpo, além de ficar por horas ajoelhados no asfalto quente. Calouros também teriam sido levados para uma república chamada pelos veteranos de UTI (Unidade Intensiva de Trote), onde tiveram que passar um ovo com a boca de um aluno para o outro, sob pena de lamber o chão se derrubasse o ovo. Coisa leve.
Por muito, muito, mas muito menos a nossa querida Geisy quase foi triturada por 700 furiosos alunos por usar uma minissaia na faculdade – e acabou expulsa por isso. Aqui, Dona Sônia achava que a rapaziada que aprontou um pouco mais pesado merecia pegar no canudo e abrir os braços para uma das profissões mais nobres e importantes da sociedade.
Nos anos 1960, lá no século passado, usar uma minissaia era um sinal de rebeldia, de coragem para peitar o governo autoritário. Depois virou item fundamental da alegria brasileira e inspiração para todas as horas – em muitas vezes, uma minissaia dá sentido a essa porra toda chamada existência. E o vestido da Geisy nem era assim tão escandaloso. E a Geisy nem era tão gostosa assim, ela é no máximo, com muita boa vontade, uma gordelícia. O que a rapaziada da faculdade queria mesmo era sangue. A coisa estava um tédio, vamos procurar alguém pra jogar aos leões.
Sério. Centenas de pessoas expulsando uma menina da faculdade por causa de um vestido é uma história que não entra na minha cabeça em pleno século 21. De onde veio esse conservadorismo? E na faculdade? Faculdade é onde você aprende que o bicho pega, que neguinho chora e a mãe não vê, onde o pau come de verdade, se é que você me entende. Quantos do que quiseram botar a Geisy pra fora não frequentam micaretas universitárias, festinhas em república, tentando botar pra funcionar todo o tipo de sacanagem? Ou como diria o Danilo Gentili, “faculdade serve para ir para o bar e fumar maconha”. Pode parecer um exagero, mas na área de Humanas a coisa é mais ou menos por aí.
Tomem cuidado, a cultura do ódio chegou. Tudo que neguinho queria ali era exorcizar as suas frustrações (elas, de não terem coragem de mostrar o corpinho – e também o, vai lá, corpinho; eles, de não conseguirem pegar a Geisy) na base da porrada. Hoje a coisa tá assim. E o tiro saiu pela culatra. Se eles queriam expulsá-la, tirarem ela do convívio deles, dançaram. Criaram uma nova celebridade instantânea. E ela tá se dando muito melhor do que se daria continuando a ir as aulas.
Outro exemplo. Você pode falar sobre qualquer coisa no Brasil, menos sobre futebol. A gente aqui no Boteco Vanguarda já fomos “desautorizados” a falar sobre o São Paulo. A torcida tricolor, aliás, é a mais furiosa. Neguinho já ligou aqui jurando os três de morte. Sim, de morte. Tudo por uma brincadeira absolutamente normal, como a gente brinca com todos os outros times. Botaram o terror na gente. Mandaram recados de todos os lados.
Em Taubaté também não somos bem-vindos. Uma vez a gente fez uma matéria sobre a dura vida que é jogar a quarta divisão. Uma matéria a favor do Taubaté, diga-se. Um VT que começa assim: “Torcer para Corinthians, Palmeiras, é fácil. Guerreiro mesmo é o cara que acorda num domingo de manhã para apoiar o seu time na quarta divisão”. E termina com um torcedor dizendo “temos que apoiar, senão o time não sai dessa” e a imagem mostra um gol do Taubaté e o jogador correndo para comemorar na sua torcida. Uma matéria dessa não pode, em nenhuma situação, ser negativa para o Burrão.
Uma única pessoa viu. Não entendeu nada e na madrugada mesmo convocou outros torcedores a nos exterminar. No embalo, centenas de outros torcedores que não chegaram a ver a matéria. Repito: não chegaram ao menos a assistir a matéria. Mesmo assim, eles queriam nos capar, fritar e dar pra gente comer. Pediram as nossas cabeças. Ameaçaram de todas as forma. Hoje, por exemplo, não podemos nem ao menos jantar em um restaurante de Taubaté sob o perigo de sermos espancados. Cultivaram o ódio. Quando o Taubaté subiu, vieram nos hostilizar como se estivéssemos torcendo contra. Burrice. Tudo que a gente quer é ver os times da região cada vez melhores. É melhor para o nosso trabalho, a gente ganha mais espaço. A gente torce por isso.
Esse tipo de coisa aqui na região não é exclusividade do Taubaté. Esse ano, o São José ficou a uma vitória de voltar para a primeira divisão do futebol paulista. O jogo era em Americana. Acordamos de madrugada, fomos de ônibus junto com todos os torcedores. Enfrentamos calor, geral da polícia, dificultaram nossa entrada no estádio com a câmera. O São José não venceu. Foi só o juiz apitar para a torcida botar a culpa na gente. Neguinho veio pra cima. Queriam bater em alguém. Os escolhidos, a gente. Que estavamos ali registrando tudo ao lado deles. É o tal do ódio, já ouviu falar?
Aqui mesmo, no blog. Em um dos capítulos da série “Mulheres Impossíveis”, o texto, que é de ficção, falava de uma conversa de um homem com uma prostituta. Neguinho caiu de pau, falou que a gente estava fazendo apologia a prostituição. Só pode ser brincadeira. Mandou a gente até sair do ar. Disse que a má formação escolar brasileira e que os piores programas da TV mundial era culpa nossa, principalmente de textos como aqueles. Queriam a nossa cabeça. Ódio!
Essas pessoas também devem ter enchido o saco e a caixa de e-mails do Fantástico, que fez uma matéria sobre o filme da Bruna Surfistinha. Também devem ter pedido para as livrarias pararem de vender livros de José Saramago, Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez... Nada que faça “apologia a prostituição”. Faça-me o favor.
O mundo está, desculpe o linguajar, violento pra caralho. Pra caralho! E na época das, hummmm, redes sociais, neguinho agora acha que o certo é resolver tudo no braço. E mostrar as pernas não vai salvar a sua pele, querida leitora.
"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo."
Essa semana fizemos um programa histórico no Vanguarda Mix. Ficamos 12 horas seguindo o que nossos seguidores no Twitter sugeriram. A gente foi parar numa escola, jogamos videogame na casa de gente que nunca víamos, fomos jogar vôlei de areia em plena madrugada. É sensacional essa tal rede social, não é? Deve ser. Pois foi justamente depois da engraçadíssima partida de vôlei que nosso anfitrião, agradecido pelo momento que passamos juntos, ofereceu um presente que nesses tempos é de uma heresia danada recusar: “vocês querem um convite para o novo Orkut? Tenho vários!”.
Não, obrigado. Já nem gosto do meu velho. Sério. Tenho, mas não gosto. Nem entro. Mantenho apenas por outras razões. E olha que minha inscrição é velhinha: estou lá desde 2004. E posso te garantir, leitora amiga: o Orkut não serve para nada.
Quer dizer, deve servir para alguma coisa fora tomar conta da vida dos outros, galinhar e fofocar. Mas a coisa piora ainda mais porque eu sou um homem de Neanderthal. Ou, parafraseando a sábia Biquini Girl para Hank Moody na sensacional série Californication, “eu sou um cara analógico em tempos digitais”.
Sou. Pode espalhar, eu não ligo. Não gosto de perder muito tempo da minha vida perambulando pela vida alheia. Acredito que, se você é normal, quando o tempo sobra é para gastar com a mulher, ir tomar um sorvete, no cinema ou só ficar de bobeira.
Mas eu sou eu e provavelmente estou errado. Tem muita gente que acha item fundamental na vida ficar fofocando na internet e várias modas nascem e sustentam o mercado através dela. Taí a loucura em cima da série “Crepúsculo” que não me deixa mentir. Cada um sabe o que é melhor para si e faz o que bem entender, essa, aliás, é uma da graças do mundo moderno.
Só me incomoda um pouco quando tratam o sistema como a grande invenção do século. Paranóico, vejo nas redes sociais a grande jogada comercial do século. Com uma estratégia marqueteira genial (o lance de precisar ser convidado por alguém para entrar no Novo Orkut é uma isca irresistível nesses tempos de miséria espiritual generalizada que todos querem ser VIP) que vendeu o sistema como uma necessidade moderníssima e descolada, os donos dessas redes têm em mãos o cadastro de preferências, gostos, desgostos, manias e afins de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. Jovens, na sua maioria, os consumidores do futuro. Quanto uma empresa pagaria por essas informações?
Enfim, coisa de velho chato. Não ligue pra mim, jovem leitora, eu estou babando. Aí você diz: "pô, serve para você encontrar aqueles amigos que você não vê há tempos?". Sorry, brother. Todas as pessoas importantes na minha vida eu mantenho contato direto. Os grandes amigos que eu fiz em todas as fases ainda estão aqui a distância de um telefonema. Essas redes não estimulam a amizade, mas sim a vulgariza. Todo mundo só quer mesmo reforçar a sala de troféus de caras das quais, a maioria, talvez você nem nunca viu ao vivo - servem única e exclusivamente para alimentar a auto-estima digital.
Tal qual uma música do Wando, eu gosto do olho no olho, gosto de fazer amigosno dia-a-dia. Prefiro beber uma cerveja no boteco e jogar conversa fora do que deixar um "scrap". Amizade é uma coisa cara para mim - deve ter a ver com o fato de ser filho único. Assino embaixo da frase do lendário Nelson Rodrigues: “o amigo é o grande acontecimento da vida, o resto é paisagem”.
Ah. Quando acabou o vôlei que eu falei lá em cima, o mesmo amigo que ofereceu o convite do novo Orkut, suspirou e disse: “caramba, foi muito legal. Nada substitui isso, né?”. Né.