dica enviada por Renato Ferezim do Ferrovias do Vale
Neste sábado (19), fui até Bananal (SP). A cidade tem 10 mil habitantes e como os próprios moradores dizem, é um “museu a céu aberto”. Fica bem na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro, é a última cidade no extremo leste do estado.
Vou começar falando da história da Ferrovia em Bananal, que começou na década de 1860. Duas construções da cidade simbolizam a época de ouro da cidade. A Estação Ferroviária e a residência “Solar Aguiar Valim”.
Nesta época, Manoel de Aguiar Valim era proprietário de pelo menos 80% das terras de Bananal. Herdou boa parte da fortuna do Comendador Luciano José de Almeida, ao casar com a filha dele, Domiciana Maria de Almeida. Mandou construir a residência, onde trabalhavam 40 escravos. Valim era o homem mais poderoso da cidade, sua fortuna foi construída sobre o café, sustentada pela mão de obra escrava. Ele era titular de uma fortuna correspondente a 1% de todo o papel moeda circulante no Brasil.
A produção era toda levada até Barra Mansa por animais. Valim decidiu que era hora de implantar uma ferrovia para fazer tal trabalho. Nasceu o projeto da Estrada de Ferro Bananal. A estação foi inaugurada no dia 3 de janeiro de 1889, quando o mercado do café já apresentava instabilidade para a cidade.
O detalhe é que a estação foi importada da Bélgica. Feita em placas de metal, ela é totalmente desmontável. É a única do gênero na América Latina (segundo a prefeitura, existem apenas 2 no mundo. Ainda estamos confirmando esta informação).
A estação e a ferrovia foram concluídas, mas Manuel Valim não chegou a vê-las em funcionamento. Faleceu em 1878.
Com a abolição da escravatura, em 1888, tudo mudou. A ferrovia passou do café para o leite. Levava a pouca produção da cidade até Barra Mansa. Em 1920, os fazendeiros não tinham mais como custear os luxos que existiam na cidade. Resultado: a Estação passou a integrar o patrimônio da União e o palacete Solar dos Valim foi entregue ao governo do estado, que o transformou em uma escola.
A ferrovia funcionou com pelo menos 2 partidas ao dia até 1963, quando foi desativada pelo então presidente, Jânio Quadros. O prefeito em 1964 era Plínio Graça (vivo até hoje e que nos concedeu entrevista – foto abaixo). Ele conta que tentou de tudo para reativar a ferrovia, sem sucesso. O Decreto de Jânio foi motivado pelo alto custo de manutenção da ferrovia.
Quem pesquisa sobre a Estação Ferroviária na internet, lê que hoje ela abriga um centro cultura, uma biblioteca e a rodoviária da cidade. Mas não é a realidade. A Estação foi tomada na justiça pelos Correios, e hoje está totalmente desativada, a espera do final do processo.
Já o Solar Valim, possuía pinturas do artista espanhol José Maria Villaronga. Possuía ou possui, já que quando virou escola, o governo simplesmente pintou as paredes de verde, cobrindo toda a pintura de Villaronga. Hoje parte da pintura foi raspada e dá para ver parte da obra, mas nada foi restaurado. Hoje o prédio recebe visitas só no hall de entrada. A parte de cima está interditada, obedecendo um laudo do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas.
Um fim de semana em Bananal é certamente uma viagem fantástica. A história deixou sinais por todas as partes da cidade. Na praça central é possível ver a casa onde funcionava a antiga Telesp, ao lado do fórum. Todos no estilo arquitetônico característico da cidade.
Se além da história, você gostar de aventura, vale a pena uma passagem pelo Parque Nacional da Bocaina, com trilhas e cachoeiras que ficam há menos de 2 horas da cidade. O melhor de tudo é que por lá não se gasta muito. O preço da comida e das visitas turísticas é justo. Para visitar a “Pharmácia” (foto abaixo), que é a mais antiga em funcionamento no Brasil, o turista paga R$ 2,00. Mas, se o turista quiser só dar uma espiadinha na entrada, também será muito bem recebido pelo dono, o Sr. Plínio (que já citei acima).
Existe um detalhe importante sobre como chegar à Bananal. A Rodovia dos Tropeiros, que sai de Silveiras e vai até a cidade, está precária em muitos trechos. Precária a ponto de quebrar um amortecedor. Por isso, optei por ir até Barra Mansa e pegar a estrada para Bananal. Nessa rota, levei 2 horas e 45 minutos, partindo de Taubaté (SP).