Aos 15 anos, Gabriela Maria Alves da Silva sonhava em conhecer outros países. Decidida em tornar o desejo uma realidade, Gabi Alves, como é hoje conhecida, não deixou de trabalhar no depósito de materiais de construção da família, no centro de São José dos Campos, nem parou os estudos. Ao contrário. Com o passar do tempo, ela trabalhou ainda mais, aprendeu Inglês e, quando se sentiu preparada, resolveu abrir o próprio negócio na área que sempre gostou: a gastronomia. Por quatro anos, o restaurante “Cabala” foi o primeiro a ser coordenado pela empresária, que criou um cardápio alternativo e inovador, com destaques para os crepes. O lugar também era muito conhecido por incentivar a cultura, pois oferecia espaço para bandas e músicos regionais apresentarem seus trabalhos. A joseense ainda abriu um segundo restaurante: o “Coelho e Cabrito”, que fez muito sucesso durante três anos. Hoje, aos 37 anos de idade, Gabi Alves comanda com sucesso um badalado restaurante em Pequim, na China, onde vive há cinco anos. Roteiro de Ouro, em homenagem ao dia internacional da mulher, conversou com a empresária, que passa férias no Brasil com seus familiares que residem em São José dos Campos. Ela conta como conseguiu realizar o sonho da adolescência e se tornar uma cidadã do mundo:
Roteiro de Ouro: Como você foi parar na China?
Gabi Alves: Recebi o convite de um dos clientes de meu restaurante em São José que se tornou um super-amigo. Era o Mauri, que morava na China e trabalhava pelo INPE. Ele dizia que lá não existiam restaurantes iguais aos do Brasil e, como ele gostava da maneira de como eu trabalhava, sugeriu que abrisse um restaurante lá. Durante 15 anos, tive uma sócia nos restaurantes, a Viviane Gonçalves, que também foi convidada. Ela atuava como “chef” e eu cuidava da parte de administração. Porém, tivemos que postergar o projeto porque a China se preparava para as Olimpíadas e não estava fácil encontrar um lugar para abrir o restaurante. Daí fui para a Inglaterra, que foi um “pit stop” para melhorar o Inglês. A ideia era passar seis meses lá, mas fiquei cinco anos. Aproveitei para me formar em Administração Hoteleira com ênfase em vinhos. Essa parada foi essencial para minha aventura.
Roteiro: E como foi a chegada na China?
Gabi: Na Inglaterra, tive um período de cinco anos para me preparar e estudar a cultura e os costumes da China. Porém, quando você aterrissa em terras chinesas, descobre outra impressão. Você vê o local, a limpeza, a condição das pessoas. Muda a imagem que você tem na mente. Achei o povo Chinês extremamente receptivo. Eles tentam falar sua língua, se expressar por gestos e mímicas. De qualquer maneira, você consegue se comunicar por causa da abertura que eles dão para isso. Os mais idosos tem um pouco mais de resistência, por terem uma cultura mais restrita, severa. A China se abriu há muito pouco tempo. Você vê diferenças nas gerações. Você vê a fome da nova geração em aprender e conhecer o ocidente. Isso não é algo tão presente nos idosos. Mesmo assim, não encontrei impedimento no país.
Roteiro: E seu primeiro restaurante? Como surgiu?
Gabi: Era o “Alameda”. Ficava numa parte mais central de Pequim, em uma rua dos bares. Ele ficava dentro de uma galeria, em estilo mediterrâneo. Era todo de vidro; era bem charmoso. O restaurante servia comida brasileira contemporânea. Os destaques eram os nossos ingredientes, sempre frescos. Por sermos brasileiras, fazíamos pratos como a feijoada, tradicionalíssima aos sábados, o camarão na moranga, o bobó de camarão, entre outros. Porém, a proposta do restaurante era mais mediterrânea e moderna, trabalhando um pouco com as estações do ano, que são extremamente presentes e rigorosas. O “Alameda” ficou quatro anos sob a minha gerência.
Roteiro: Qual era seu público?
Gabi: Digamos que era de dez por cento de brasileiros. A grande maioria era formada por estrangeiros: europeus, americanos, australianos, e também os asiáticos, que acabam gostando da comida brasileira, que é muito saborosa e única no mundo.
Roteiro: E seu novo estabelecimento?
Gabi: Bem, agora tenho o “Salt Restaurant Beijing”; faz um ano e três meses. Ele fica há três quilômetros do “Alameda”, numa área ainda mais estrangeira, mais residencial, de hotéis. O “Salt” já é uma proposta mais complexa, de uma influência muito mais sul-americana. Minha “chef” executiva, que eu trouxe dos Estados Unidos, Ana Esteves, é venezuelana. Ela trabalhou no Peru, Venezuela e na Flórida. O restaurante é bem mais eclético, com mais tendência para o conceito contemporâneo.
Roteiro: Hoje você tem um negócio consolidado na China, mas faz questão de não perder o vínculo com seu país...
Gabi: Sou uma mulher tropical, uma cidadã do mundo, mas com coração brasileiro. Sinto muita falta do Brasil. Uma falta tremenda. Venho geralmente antes do carnaval. Tenho que dar um jeito e fugir do inverno chinês, que nessa época já passou dos limites. Fico um mês por aqui.
Roteiro: Você imaginava que um dia seu sonho da adolescência se tornaria realidade?
Gabi: A fascinação que tenho por conhecer outras línguas, conhecer outras culturas, outros estilos de vida, conhecer novos horizontes, sempre foi muito forte. Para transformar o sonho em realidade foi preciso muita determinação e vontade de aprender sempre mais, sem ter medo dos obstáculos. Acredito que se a pessoa tiver medo, ela não sobe nem no avião.
Roteiro: Aliás, a viagem é bem longa...
Gabi: Sim. Daqui até lá são 22 mil quilômetros. Com as conexões, são 26 horas de voo. A boa coisa que há quando você vem da China é que se chega aqui um dia na frente. Mas quando eu vou embora eu perco meio dia. Não é fácil assimilar a diferença de fuso-horário.
Roteiro: Como mulher, como você encara o fato de ter vivido tudo isso?
Gabi: A mulher está descobrindo seu potencial e agarrando o desejo de se atualizar e de fazer diferença no mercado. Ela está chegando lá, no mundo todo. Com, certeza o caminho que ela percorre é mais tortuoso, mas isso torna a experiência ainda mais fascinante. Quanto mais difícil, mais interessante fica a experiência. A satisfação da vitória depois é muito maior.
Roteiro: Esse conceito tem relação com a cultura chinesa?
Gabi: Sim. Acho que, na verdade, acabei caindo na China por causa disso: aprender a ser paciente e ter uma perseverança maior diante das dificuldades. Creio que geralmente a gente cai no lugar certo. E ter parado na China, penso, foi a chance de viver um grande aprendizado. Entendi que, depois das dificuldades que você passa por ser mulher, trabalhando em um mercado capitalista, em um sistema comunista, é possível enfrentar tudo. Eu costumo dizer: após ter feito negócios na China, posso fazer negócio até em Marte.